Síntese da obra de ERNEST RENAN (HISTORIADOR), sobre
“PAULO O
DÉCIMO TERCEIRO APÓSTOLO” ressaltando a história da igreja
primitiva.
Se você assim como eu, deseja conhecer um pouco da história
desse homem e das origens das igrejas primitivas, nos
acompanhe nessa leitura. Lembre-se não são minhas estas
idéias, são parte de uma síntese de um longo estudo do
autor. Ao ler fui fazendo anotações e pensei que seria
útil dividi-las, compartilhar com outras pessoas, assim foi
se tornado este longo escrito. Acrescentei diversas fotografias
que fiz para tornar a leitura ainda mais agradável.
Procurei colocar os pontos que ao meu ver sintetizavam
melhor a obra, sem omitir os fatos mais relevantes.
Este conteúdo pode ser lido em grupo, ou por você
individualmente, servindo de fonte de pesquisa, de formação.
Se
gostares de leitura, de estudo aqui terás bons momentos.
Me encantou a forma romanceada do autor, a maneira
interessantemente humana como coloca os fatos por ele
pesquisados por tantos anos, que nos faz ver esses
personagens sobre novo olhar, de seres humanos como nós,
com suas lutas, conquistas e dores.
Então vamos lá:
“Avaliando-se a obra de Paulo, metade da Ásia Menor recebeu a
semente cristã, na Europa, a Macedônia foi profundamente
conquistada, compreendendo a Grécia. Se somar-se a isto a
Itália, de Pouzolles a Roma, já sulcada por cristãos,
ter-se-á o quadro das conquistas efetuadas pelo cristianismo
nos 16 anos da história das igrejas primitivas aqui
relatadas.
A
Síria, recebera anteriormente a palavra de Jesus e possuía
igrejas organizadas. Os progressos da nova fé haviam sido
verdadeiramente enormes.
Em
toda a história, é preciso acautelarmo-nos da ilusão que a
leitura das epístolas de Paulo e dos Atos dos Apóstolos,
produz segundo essa leitura, de levar-nos a imaginar
conversões em massa, países inteiros passando a crer no
culto novo. Paulo, que frequentemente nos fala de judeus
rebeldes, jamais fala da imensa maioria dos pagãos, que
desconheciam a fé. Os primeiros cristãos viviam tão
isolados no seu círculo, que não sabiam quase nada do mundo
profano.
Considera-se um pais evangelizado desde que o nome de Jesus
aí tivesse sido pronunciado e que uma dúzia de pessoas se
tivessem convertido.
Uma igreja era frequentemente constituída por doze ou quinze
pessoas. Talvez todos os convertidos de Paulo na Ásia Menor,
na Macedônia e na Grécia não excedessem mil.
A
Igreja de Corinto devia ser bem menor do que a de Éfeso,
porque não constituía mais que uma ecclesia, a qual
se reunia inteira numa casa.
Um
homem contribuiu para a rápida extensão do cristianismo mais
do que nenhum outro; esse homem rasgou a espécie de tecido
grosso e prodigiosamente perigoso com que o cercavam e o
apertaram logo após o seu nascimento; proclamou que o
cristianismo não era uma simples reforma do judaísmo, mas
sim uma religião completa, existindo por si mesma, Paulo.
As
igrejas da Macedônia e da Galácia que são as obras
próprias de Paulo, não tem grande importância dos séculos II e
III.
No futuro Paulo engrandecer-se-a singularmente, torna-se-á o
doutor por excelência, o fundador da teologia crista, o
verdadeiro presidente desses grandes concílios.
Porém, na Idade Média, principalmente no Ocidente, a sua
obra sofrerá um estranho eclipse. Paulo nada dirá ao
coração dos bárbaros; não terá lenda fora de Roma; a
cristandade latina pronunciará o seu nome depois do de
Pedro. Paulo, na Idade Média, perde-se de certo modo no
esplendor de São Pedro. Este, enquanto movimenta o mundo, o
faz tremer e obedecer, deixa obscuro São Paulo, desempenhar
um papel secundário na grande poesia cristã, que enche as
catedrais e inspira os cantos populares.
Quase ninguém, antes do século XVI se recorda do seu nome,
aparece apenas nos monumentos figurados; não tem devotos, não
lhe edificam igrejas, não lhe acendem velas.
Os
que os cercavam, não encontram lugar no culto público, em
especial os latinos.
Paulo era quase antipático a consideração popular e talvez
demasiadamente conhecido pela história, para que se pudesse
formar em volta da sua cabeça a auréola das fábulas.
Para ter lenda é preciso ter falado ao coração do povo;
ter impressionado as imaginações. Falai-me de Pedro, que faz
curvar a cabeça dos reis, pisa sobre a serpente e o
basilisco, e tem as chaves do céu.
A
reforma abre para Paulo uma era nova de gloria e de
autoridade. O próprio catolicismo chega , por estudos mais
desenvolvidos que os da Idade Média, a idéias muito precisas
sobre o apóstolo dos gentios.
A
partir do século XVI, o nome de Paulo propaga-se por toda
a parte.
Roma eleva Paulo a um pedestal quase igual ao de Pedro.
Se
torna o santo do povo.
Que lugar lhe dará a crítica?
Que categoria lhe assinará na hierarquia dos que serviram o
ideal?
Praticando o bem serve-se o ideal.
O
que foi Paulo? Não foi um santo.
Não é a bondade o traço dominante do seu caráter.
Foi altivo, áspero, defendia-se, afirmava-se;
dizia palavras duras; acreditou ter absolutamente razão; foi
volúvel; é intransigente nas suas opiniões; encontra-se a
cada passo envolvido em intrigas com várias pessoas.
Não
foi um sábio, pode dizer-se que ofendeu muito a ciência
pelo seu desprezo paradoxal da razão; nunca foi um poeta.
Que foi ele então?
Paulo foi um homem de ação, uma alma forte, avassaladora,
entusiasta, um conquistador, um missionário, um propagandista.
O
personagem histórico que mais semelhança apresenta com Paulo
é Lutero. Em um ou em outro existe a mesma violência na
linguagem, a mesma paixão, a mesma energia, a mesma nobre
independência.
O
filho de Deus, Jesus é único.
Surgiu como um cometa, lançou uma luz doce e profunda,
morreu muito jovem: é esta a vida de um deus.
Lutar, disputar, vencer: é esta a vida de um homem.”