Síntese da obra de ERNEST RENAN (HISTORIADOR), sobre
“PAULO O
DÉCIMO TERCEIRO APÓSTOLO” ressaltando a história da igreja
primitiva.
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Convencionou-se que ,nos países distantes em que os novos
convertidos não tivessem relações ininterruptas com os
judeus,bastaria a abstinência do sangue,assim como das carnes
oferecidas em sacrifício aos deuses ,e que as leis dos
judeus sobre o casamento fossem seguidas.
Paulo explicou a Pedro ,Tiago e João o evangelho que pregava
aos gentios;os três o aprovaram inteiramente.Todos apertaram
as mãos reconhecendo-lhes o seu direito divino e imediato
ao apostolado do mundo pagão. O título de apóstolo dos
gentios que Paulo já se apropriara foi-lhe oficialmente
confirmado,e sem dúvida se reconheceu. Aos três representantes
da igreja da Antioquia (Paulo, Barnabé e Tito), a única
coisa que pediram foi que não esquecessem os pobres de
Jerusalém ,pois a igreja desta cidade continuava a viver em
circunstâncias adversas. Eles acolheram esta idéia. Por meio
de um pequeno tributo,comprava-se a liberdade de espírito e
ficava-se integrado com a igreja central, fora da qual
ninguém ousava esperar salvação.”
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"A
população da Antioquia, como em geral a da Frígia, tinha uma
grande inclinação para o monoteísmo.
O
novo culto que não exigia circuncisão e não obrigava a
certas recomendações mesquinhas, era mais adequado do que o
judaísmo para atrair os pagãos religiosos.
Essas províncias distantes, perdidas nas serras, pouco vigiadas
pelas autoridades,sem importância histórica e de qualidade
alguma,eram um ótimo terreno para a fé. E assim, se
constituiu uma vasta igreja , sendo Antioquia de Pisídia um
centro de propaganda, de onde a doutrina irradiou para as
povoações vizinhas.
O
sucesso da nova pregação entre os pagãos acabou por
despertar a fúria dos judeus a uma piedosa intriga contra
os missionários."
...
Antioquia
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"Paulo, Barnabé e Tito, ao voltar a Antioquia foram
acompanhados por dois dos principais membros da igreja de
Jerusalém, Judas e Silas, que tinham como tarefa reprovar a
atitude dos irmãos da Judéia que haviam lançado a perturbação
, e de prestar homenagem a Paulo e Barnabé.
Judas e Silas tinham o ar de profetas; a sua linguagem
inspirada foi extremamente apreciada na igreja de Antioquia.
Silas nunca mais voltou para Jerusalém, juntando -se a
Paulo com laços de fraternidade .
Judas retornou para os apóstolos.
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Os judeus eram no início da propagação do
cristianismo,extremamente nômades. Ativos, laboriosos, honestos. Os
nobres da seita cristã viajavam como os outros judeus,
levando a boa nova. Era uma espécie de pregação íntima e
bem mais persuasiva que qualquer outra. Em toda a parte a
doçura,a graça, o bom humor, a paciência dos novos crentes
tornava-os bem recebidos em toda a parte, cativando os
corações.
Um dos primeiros lugares atingidos foi Roma. A capital do
império ouviu o nome de Jesus muito antes que todos os
países intermediários tivessem sido evangelizados.Roma era o
lugar que abrigava todos os cultos orientais.
O grego,foi durante três séculos, o idioma do mundo judeu
e do mundo cristão de Roma.Todos falavam grego (Koiné).
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"Como é natural, a introdução da nova fé provocou no bairro
judeu de Roma várias rixas e disputas. Os agitadores se
denominavam "cristiani", ou seja, seguidores de um
certo Cristo.
O
principal bairro judeu de Roma ficava além do Tibre, isto
é , na parte mais pobre e mais suja da cidade.
Era um bairro de judeus e de siríacos,"nações nascidas
para a servidão".
O
primeiro núcleo da população judáica de Roma foi construída
por libertos, descendentes em sua maioria dos que Pompeu
trouxe para Roma como prisioneiros e que tinham atravessado
a escravidão, sem alterarem em nada os seus hábitos
religiosos.
Um
romano que se respeitasse jamais pisava em bairros tão
deploráveis. Para esse lugar estava destinada uma parte da
cidade,sacrificada às classes desprezadas: os curtidores de
peles,os caldeireiros, os tripeiros."
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"Convertidas ricas usavam nomes bíblicos, convertiam os seus
escravos, faziam explicar a escritura pelos doutores,construíam
lugares para a oração, sentindo-se orgulhosas pelo prestígio de
que gozavam neste pequeno mundo judeu.
Existiam muitos judeus, homens de sociedade, ricos e
poderosos como Tibério Alexandre ,que conquistou maiores
honras do Império.
No
dia em que sob o reinado de Cláudio, um judeu iniciado nas
novas crenças , pisou em Roma, ninguém soube que a fundação
de um segundo império, um novo Rômulo, se encontrava no porto,
vivendo entre palhas.
Próximo do porto havia uma espécie de estalagem,muito
conhecida do povo, a Taberna meritória. Julga-se que mais
tarde, esta se tornou uma igreja."
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"A
grande questão era a subida de Agripa ao poder e a adoção
de Nero por Cláudio.
Ninguém pensava no pobre judeu que pela primeira vez
pronunciava o nome de Cristo e informava aos seus
companheiros de quarto a fé que o tornava feliz; e logo
vieram outros.
Cartas da Síria trazidas pelos recém chegados, falavam do
movimento que aumentava incessantemente.
Formou-se um pequeno grupo.
As
suas habitações tinham o mesmo aspecto de miséria das pessoas
vestidas e alimentadas parcamente, reunidas num mísero
quarto.
O
número tornou-se suficiente para se falar alto; pregou-se então
no gueto; os judeus ortodoxos resistiam.
È
muito plausível que tenham ocorrido cenas tumultuosas. A
passagem de Suetônio e mais ainda a dos Atos
parecem dar a entender que todos os judeus foram expulsos por
essa ocasião; mas é improvável.
É
natural que só os cristãos fossem expulsos."
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"Em Roma já havia uma nova igreja cristã, no ano de 98.
Os
fundadores desta primeira igreja de Roma,destruída por ordem
de Cláudio, são desconhecidas,mas os nomes de dois judeus
que foram exilados em seguida aos motins da Porta Portese, são
conhecidos. Era um casal piedoso, Aquila e Priscila. os os
dois refugiaram-se em Corinto, e logo vão tornar-se amigos
íntimos e zelosos colaboradores de Paulo.
Não havia igreja em Corinto antes da chegada da Paulo.
A
quila
e Priscila são os dois mais antigos membros que se conhecem
da igreja de Roma. A lenda, sempre injusta porque é sempre
dominada pelos motivos políticos, expulsou do movimento cristão
estes dois simples trabalhadores, para atribuir a honra da
fundação da igreja de Roma a um nome mais ilustre."
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"Para nós , não é na Basílica que se consagrou a São
Paulo e sim na Porta Portese, nesse gueto antigo que vemos
verdadeiramente o berço do cristianismo ocidental ( o principal
cemitério judeu de Roma foi encontrado junto desse lugar em
1602).
Seriam vestígios desses pobres judeus, que levavam com eles a
toda a parte a religião do mundo, desses homens sofredores,
sonhando na sua miséria o reino de Deus, que era preciso
encontrar e beijar.
Não retiramos a Roma o seu título essencial: Roma foi o
primeiro lugar do mundo ocidental, e até da Europa, em que o
cristianismo se estabeleceu. Mas, no lugar dessas basílicas
ricamente construídas, como teria mais valor uma pobre capela
aos dois bons judeus do Ponto, que foram expulsos
pela policia de Cláudio."
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"Depois da igreja de Roma a mais antiga igreja do Ocidente
foi a de Pouzzoles onde Paulo encontrou cristãos no ano 61.
Pouzzoles era, de certa forma, o porto de Roma, o lugar de
desembarque dos judeus e sírios que vinham a Roma.
A
igreja de Roma não foi, como as da Ásia Menor, da
Macedônia e da Grécia, uma fundação da escola de Paulo e
sim foi uma criação judaico-cristã, ligando-se diretamente à
igreja de Jerusalém.
Nessa igreja, Paulo jamais se sentirá á vontade.
Filha predileta de Jerusalém, a igreja de Roma terá sempre
um caráter ascético, sacerdotal, oposto à tendência protestante
de Paulo.
Pedro seria o verdadeiro mestre da igreja de Roma.
O
único sinal da missão apostólica será o de mostrar uma carta
assinada pelos apóstolos e produzir um certificado de
ortodoxia. Inutilmente Paulo lhe dirigirá a sua epístola,
expondo-lhe o ministério da cruz de Jesus e da salvação
unicamente pela fé: a igreja de Roma nada compreenderá."