Síntese
da obra de ERNEST RENAN
(HISTORIADOR), sobre
“PAULO
O DÉCIMO TERCEIRO
APÓSTOLO” ressaltando
a história da igreja primitiva.
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"Para a igreja
primitiva, uma das
principais virtudes consistia
em conduzir as coisas “de
forma que a nossa vida
seja honrosa aos olhos dos
de fora e
a que nós , não nos
falte nada".
Os dons sobrenaturais do
Espírito
Santo, como a profecia,
não eram olhados com
indiferença, mas nas igrejas
da Grécia, que
não eram
constituídas por judeus, essas
atividades deixaram de ter
significação.
A disciplina
cristã convertera-se
numa espécie de piedade
deísta, que se
resumia em servir o verdadeiro
Deus, em rezar
e fazer o bem.
Todos acreditavam
na
iminência do reino de
Deus, na manifestação
próxima de uma grande
glória, no meio da
qual o Filho de Deus deveria
aparecer. Uma
catástrofe terrível
estava para produzir-se
em breve e ela feriria todos
os que Jesus
não pudesse salvar. Contra
esta doutrina
surgiram várias
contestações.
Depois da passagem
de Paulo,
alguns falecimentos tinham acontecido na
igreja Tessalônica ;
foi
muito forte
a impressão causada por essas
mortes. Deveria-se
lamentar e considerar como
excluídos do
reino de Deus os que tinham
desaparecido
antes da hora solene?
Muitos queriam
saber o
dia da aparição de
Jesus, Paulo censura
essas perguntas e demonstra o
seu vazio.
Era enorme a
preocupação da
catástrofe, fazia-se
até
circular falsas cartas do
apóstolo, em que
o fim era anunciado.
Nestes textos escritos
vinte anos
após a morte de Jesus, observa-se
que apenas
um elemento essencial se
juntou ao retrato
do dia do Senhor, é
a presença de um
anticristo, ou falso Cristo,
que deveria
surgir antes da grande
aparição do
próprio
Jesus.
A incrível
tragédia que Roma apresentava
nesse momento para o mundo,
não podia deixar de
exaltar as
imaginações.
Provavelmente Calígula,
inspirou Paulo para
imaginar que ele se elevaria
acima de todos
os pretendidos deuses, e se sentaria
no templo
de Jerusalém, pretendendo
passar pelo
próprio Deus. No ano
54, o anticristo é
assim concebido como sendo um
continuador da
loucura de Calígula e, nesse
sentido, a realidade
do que acontecia era
apenas considerada
como um presságio do
que estava para
acontecer. Poucos meses depois
de Paulo
escrever esta página (II Tess, II,1-11),
Nero
conquistou o poder , e
é nele que , mas
tarde, a consciência cristã
há de ver o monstro
precursor da vinda de Cristo.
Qual era porém a
causa, ou melhor, qual era o
personagem que, no ano 54, ainda impedia, segundo
Paulo,
o aparecimento do anticristo?
Nunca houve
uma resposta.
Trata-se talvez de um
mistério, um
segredo não estranho a
política, de que os
fiéis comentaram uns com os outros.
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A oração,onomede Jesus, estavamsempre noslábiosdosfieis.Antesde
cadaatividade,antesdarefeição,realizavamumaaçãodegraças.
Considerava-secom
o umainjúriafeitaáigrejalevarosprocessosperanteosjuízescivis.A
regraconstante doapóstoloeraquedeviapermanecernoestadoem que seencontrasse, nãocircuncidado.
A igreja era umafonte permanentede
crescimentoeconforto. Durantesuasreuniõestodospermaneciamsentados, falandoapenasaquelequese
sentisseinspirado.Entãoestelevantava-seepronunciava,
cingidopeloEspirito, discursos, salmos,
cânticos, profecias, revelações,exortações.,
etc.
Incitavam-sereciprocamente; cadaumelogiava
o
entusiasmodosoutros;erao
quesechamava“
cantaraDeus.Asmulherespermaneciam silenciosas.Aoterminodecadaoração,a multidão unia-seaoorador,pelapalavraAmén.
Paraindicarasdiversasetapasdessasessãomística,opresidenteintervinhaou peloaviso
”oremos”, ou porumaexclamaçãoparao céu; ourecordandoapresençadeJesusnaquelaassembléia.
Arefeiçãoprincipiavaporumaoração, cadaqualchegavacomasuaesmolaecomiao quetrazia;osacessórios,aigrejafornecia,
comoágua
quente,assardinhas.
Gostavamdeimaginarduascriadasinvisíveis, Irene (apaz)eAgape (oAmor)ocupando-seumaemserviro
vinhoeaoutraa águaquente.Amesatinhaa
forma de ummeio
circulo, oancião
sentava-senocentro.Aspatenasoupíris
que serviamasbebidaseramobjetos demuitocuidado.
Aosausenteseralevadopãoevinho
benzidospeloministériodos diáconos.Comotempoa
refeiçãotornou-sesimples aparência.
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"Em
seu princípio, o nome que
estes festins
eucarísticos receberam
indicava admiravelmente
quanto neste rito havia de
eficácia divina
e de salutar moralidade. Chamavam-se "agapae",
isto
é, "amizades"
ou "caridades". Os judeus,
principalmente os essênios, já
relacionavam
uma
significação moral
ao
festim religioso, mas passando
para uma outra
raça, estes costumes adquiriram
um valor quase
mitológico. Os mistérios
mitrádicos (adoração a
Mitra) que
logo iriam se desenvolver
no mundo
romano, tinham como rito
principal a
oferenda do pão e da
taça, sobre os quais
se pronunciavam certas palavras. Era
tamanha a
semelhança que os
cristãos a explicaram
por
uma artimânia do
demônio, que teria
tido a intuição de
deturpar as suas santas
cerimônias.
Era de prever que
um dia a
refeição ( o
ágape) haveria de cair
em
desuso e que só ficaria a
refeição simbólica
eucarística, sinal e
recordação da
instituição
primitiva.
As festas anuais
eram
sempre as festas judaicas, em especial
a Páscoa e
Pentecostes. A páscoa
cristã era celebrada em
geral, no mesmo dia que a
páscoa dos
judeus. No entanto, o motivo
que tinha
transferido o dia feriado de
cada semana
do sábado para o
domingo, era o mesmo
que fizera regular a
páscoa, não
conforme o uso e a
tradição judaíca, mas
sim
conforme a recordação da
paixão e
ressurreição de
Jesus.
A partir
daí a verdadeira
páscoa é o
próprio Jesus; os verdadeiros
pães são a
verdade e a justiça.
Até
mesmo a festa da
páscoa já tinha sofrido,
em outro tempo, com os hebreus, uma
idêntica mudança
de significação. Realmente, na
sua origem, foi uma
festa da primavera, que depois
ligaram à
tradição da fuga
do Egito.
O Pentescostes era
celebrada
no mesmo dia que entre os
judeus. Como
a páscoa, esta festa
adquirira uma
significação inteiramente
nova, que repelia a
antiga idéia
judaíca. Imaginava-se que o
incidente principal do aparecimento do
Espírito
Santo aos apóstolos
reunidos se realizara
no dia do pentecostes, que se
seguiu á
ressureição de
Jesus. Assim, a antiga
festa da messe dos semitas
transformou-se, com
a nova religião, na
festa do Espírito
Santo, e ao mesmo tempo, sofria
entre os judeus
uma transformação semelhante;
tornava-se para eles o
aniversário da
promulgação da lei
no Monte
Sinai."
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"Não havia um
edificio especificamente
construido ou alugado para as
reuniões, não
havia por consequência
nenhuma arte, nem a
menor imagem. Toda e qualquer
representação
figurada lembrava o paganismo e
era
considerada como idolatria. (as
primeiras
pinturas das catacumbas, além
de muito posteriores
ao primeiro século,
são decorativas e
não
pretendem oferecer objetos de culto).
As assembléias
eram realizadas
na casa dos irmãos
mais conhecidos, ou que
tinham sala apropriada.
Preferia-se assim, o
aposento
que nas casas orientais
forma o andar
superior e corresponde ao nosso
salão
nobre: salas espaçosas
e altas, cheias de janelas,
muito arejadas, era aí que se
recebiam os amigos,
se faziam os festins,
se rezava e se
depunham os mortos.
Os grupos assim
formados
constituiam as "igrejas
domésticas" ou
núcleos piedosos, cheios
de atividade moral
e muito semelhantes aos
colégios domésticos
de
que , pela mesma época, se
encontram exemplos no seio
da sociedade pagã.
Sem dúvida, nas grandes
cidades, que possuiam muitas
igrejas domésticas, devia
haver igrejas plenárias em
que se reunissem
todas as igrejas parciais
(Éfeso que tinha
ao menos tres igrejas
particulares, constitui no seu
conjunto apenas um
única igreja. Corinto
tinha, ao que parece,
apenas uma igreja
particular), mas o espirito do
tempo inclinava-se
mais para as pequeninas
sociedades.
O triunfo do
cristianismo é
inexplicável para quem o
estudar apenas no século IV.
Com o cristianismo
ocorreu o que acontece sempre com as
coisas humanas: triunfou
exatamente quando, do ponto
de vista
moral, começava a
declinar; tornou-se oficial
quando não era mais do
que um resto do que
fora; teve a sua
maior popularidade quando
já havia passado o seu
verdadeiro período
de originalidade e de juventude, mas
nem por
isso deixava de
merecer a sua
grande recompensa, merecia-a ainda
pelos seus
tres séculos de virtude, pela
soma incomparável
de tendências para o bem
que conseguira despertar.