Módulo IX

 

 

História do  Cristianismo

Igrejas Primitivas

 

AUTORIA  e  IMAGENS:  LASTHENIA  DE  ALENCAR

PERÍODO: Fortaleza, Setembro  de  2009.

 

Síntese  da  obra  de  ERNEST  RENAN (HISTORIADOR), sobre

“PAULO  O  DÉCIMO  TERCEIRO  APÓSTOLO”  ressaltando  a  história da igreja  primitiva.



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"Para  a  igreja  primitiva,  uma das principais  virtudes consistia em  conduzir  as  coisas “de forma  que  a nossa vida seja  honrosa  aos  olhos  dos de  fora  e  a  que  nós , não nos falte  nada". 

Os dons sobrenaturais  do  Espírito  Santo,  como  a  profecia, não  eram olhados  com indiferença, mas  nas igrejas  da  Grécia,  que  não  eram  constituídas  por judeus,  essas  atividades  deixaram de ter  significação.

A  disciplina  cristã  convertera-se numa  espécie  de piedade  deísta, que  se  resumia  em  servir  o verdadeiro  Deus, em rezar  e  fazer  o bem.

Todos  acreditavam  na  iminência  do  reino  de  Deus, na  manifestação  próxima  de  uma  grande glória, no  meio  da  qual  o Filho  de  Deus  deveria aparecer.  Uma  catástrofe  terrível  estava  para  produzir-se  em  breve e  ela  feriria  todos os  que Jesus  não  pudesse  salvar. Contra  esta  doutrina  surgiram  várias  contestações.

Depois  da  passagem de  Paulo, alguns falecimentos tinham  acontecido  na  igreja  Tessalônica ;  foi  muito  forte  a  impressão causada  por  essas mortes.  Deveria-se  lamentar  e  considerar  como excluídos  do  reino  de  Deus  os que tinham  desaparecido  antes  da  hora  solene? 

 Muitos  queriam  saber  o dia  da  aparição  de Jesus,  Paulo  censura  essas  perguntas e demonstra  o  seu  vazio.

Era  enorme  a preocupação da  catástrofe,  fazia-se  até circular  falsas  cartas do  apóstolo,  em  que  o fim era  anunciado.

Nestes  textos  escritos vinte anos  após  a morte  de  Jesus,  observa-se  que  apenas  um  elemento  essencial  se  juntou  ao retrato  do dia  do  Senhor,  é  a  presença  de um  anticristo,  ou  falso Cristo,  que  deveria  surgir  antes  da  grande  aparição do  próprio  Jesus.

A incrível tragédia  que Roma apresentava  nesse  momento para  o mundo,  não  podia deixar  de exaltar  as  imaginações. 

Provavelmente Calígula, inspirou  Paulo  para  imaginar  que ele se  elevaria  acima  de  todos  os  pretendidos  deuses, e se sentaria  no  templo  de  Jerusalém,  pretendendo  passar  pelo  próprio  Deus.  No  ano  54,  o anticristo  é assim  concebido  como sendo  um continuador  da loucura  de  Calígula e, nesse  sentido, a  realidade  do  que  acontecia  era  apenas  considerada  como  um  presságio  do  que  estava  para  acontecer.  Poucos  meses  depois  de  Paulo  escrever  esta  página (II Tess, II,1-11), Nero  conquistou  o poder , e  é  nele  que , mas  tarde,  a consciência  cristã há de ver  o  monstro  precursor  da  vinda  de  Cristo. Qual era porém  a causa,  ou melhor, qual  era o personagem  que, no  ano 54, ainda impedia, segundo Paulo,  o  aparecimento  do  anticristo?  Nunca  houve uma  resposta.

Trata-se  talvez de um  mistério, um segredo não  estranho  a  política,  de que  os  fiéis comentaram  uns com  os outros.


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A oração,  o  nome  de Jesus, estavam  sempre nos  lábios  dos  fieis.  Antes  de cada  atividade,  antes  da  refeição,  realizavam  uma  ação  de  graças. Considerava-se  com o uma  injúria  feita  á  igreja  levar  os  processos  perante  os  juízes  civis.  A regra  constante do  apóstolo  era  que  devia  permanecer  no  estado  em que se  encontrasse, não  circuncidado.

A igreja era uma  fonte permanente  de crescimento  e  conforto. Durante  suas  reuniões  todos  permaneciam  sentados, falando  apenas  aquele  que  se sentisse  inspirado.  Então  este  levantava-se  e  pronunciava, cingido  pelo  Espirito, discursos, salmos, cânticos, profecias, revelações,  exortações., etc.

Incitavam-se  reciprocamente; cada  um  elogiava  o entusiasmo  dos  outros;  era  o que  se  chamava  “ cantar  a  Deus.  As  mulheres  permaneciam silenciosas.  Ao  termino  de  cada  oração,  a multidão unia-se  ao  orador,  pela  palavra  Amén.

Para  indicar  as  diversas  etapas  dessa  sessão  mística,  o  presidente  intervinha   ou pelo  aviso ”oremos”, ou por  uma  exclamação  para  o céu; ou  recordando  a  presença  de  Jesus  naquela  assembléia.

Dominus vobiscu.  A  exclamação Kyrie eleison, era  repetida  num  ritmo  de  súplica  e  lamento  pelos  pagãos.

Muitas  vezes  o primeiro  ato  que  se  realizava  quando  se  entrava, era  uma  espécie  de  confissão  de  grande  intimidade.

Imagina-se  a  imensa  atração  que  uma  vida  toda  devotada  devia  exercer  no  meio  de  uma  sociedade  sem  quaisquer  laços   morais.

A ¨”refeição  do  Senhor¨   tinha  uma  eficácia  moral extraordinária,  era  considerado  como  um  ato  místico por  meio  do  qual  todos  se  incorporavam  em  Cristo.

Acreditava-se que  aquele  pão,  aquele  vinho,  aquela água, eram  a carne  e  o sangue  do  próprio Jesus . Que  quem  participasse  desse  festim  absorvia  Jesus (  A   cerimônia  tinha  inicio  pelo  beijo  santo  ou  beijo do  amor)

 A  primeira  igreja  cenobítica  de  Jerusalém  partia  o  pão  todos os  dias  mas, vinte  ou trinta anos  depois,  o festim sagrado  era  celebrado apenas  uma  vez por  semana,  a  tarde,  segundo  o  costume  judaico,  a luz  de  varias  lâmpadas.

O dia escolhido  era  o dia  seguinte  ao  da cerimônia  do  sábado,  o  primeiro  dia  da  semana.

  Chamavam-no  dia do  Senhor,  em lembrança  da  ressurreição  e  da criação  do  mundo  por  Deus.( Isto  na  primeira  metade do  ano 58).; 

nesse  dia que  se colhiam  as  esmolas e  as coletas.   O sábado era  distinto  do  dia  do  Senhor.  Era  dia  do  descanso.

Aos  poucos  a  refeição  foi  se  tornando  meramente  simbólica.

 A  refeição  principiava  por  uma  oração, cada  qual  chegava  com  a  sua  esmola  e  comia  o que  trazia;  os  acessórios  ,  a  igreja  fornecia, como  água quente,  as  sardinhas. Gostavam  de  imaginar  duas  criadas  invisíveis, Irene (a  paz)  e  Agape (  o  Amor)  ocupando-se  uma  em  servir  o vinho  e  a  outra  a água  quente.  A  mesa  tinha  a forma de um  meio circulo, o  ancião sentava-se  no  centro.  As  patenas  ou  píris que serviam  as  bebidas  eram  objetos de  muito  cuidado. Aos  ausentes  era  levado  pão  e  vinho benzidos  pelo  ministério  dos diáconos.  Com  o  tempo  a refeição  tornou-se  simples aparência.


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"Em  seu  princípio,  o nome  que estes festins  eucarísticos  receberam  indicava  admiravelmente  quanto  neste rito  havia  de  eficácia  divina  e de  salutar moralidade.  Chamavam-se  "agapae",  isto  é, "amizades"  ou  "caridades".  Os  judeus,  principalmente  os  essênios,  já  relacionavam 

uma  significação  moral  ao  festim  religioso, mas  passando  para  uma  outra raça, estes  costumes adquiriram  um  valor  quase  mitológico. Os mistérios  mitrádicos (adoração a  Mitra)  que logo  iriam  se  desenvolver  no  mundo  romano,  tinham  como  rito  principal  a  oferenda  do  pão  e da  taça, sobre  os quais  se pronunciavam  certas palavras.  Era  tamanha  a  semelhança  que  os cristãos  a  explicaram  por  uma  artimânia  do  demônio,  que  teria  tido  a  intuição  de deturpar  as suas  santas cerimônias.

Era  de  prever  que um dia a refeição ( o  ágape)  haveria  de cair  em  desuso  e  que só ficaria  a refeição  simbólica  eucarística, sinal  e  recordação  da  instituição  primitiva.

As  festas  anuais  eram  sempre  as  festas judaicas, em especial  a  Páscoa e Pentecostes.  A  páscoa cristã  era celebrada  em  geral, no  mesmo  dia  que a  páscoa  dos  judeus.  No  entanto,  o motivo  que  tinha transferido  o dia  feriado  de  cada  semana  do  sábado  para  o  domingo, era  o  mesmo  que  fizera  regular  a  páscoa,  não  conforme  o  uso  e  a tradição  judaíca, mas sim  conforme  a recordação  da paixão  e ressurreição  de  Jesus.

A  partir  daí  a verdadeira  páscoa  é  o  próprio  Jesus;  os  verdadeiros pães  são  a  verdade  e  a justiça.  Até  mesmo  a  festa  da  páscoa  já  tinha sofrido, em  outro  tempo, com  os hebreus, uma idêntica  mudança de  significação. Realmente, na sua  origem, foi  uma  festa  da primavera, que  depois  ligaram  à  tradição  da  fuga  do  Egito.

O  Pentescostes  era celebrada  no  mesmo dia  que  entre  os judeus.  Como  a  páscoa, esta  festa  adquirira  uma  significação  inteiramente  nova,  que  repelia a antiga  idéia  judaíca.  Imaginava-se  que  o incidente  principal  do aparecimento  do Espírito  Santo  aos  apóstolos  reunidos  se realizara  no  dia  do  pentecostes, que se  seguiu  á  ressureição  de  Jesus.  Assim,  a  antiga  festa  da  messe  dos  semitas transformou-se,  com  a nova  religião,  na  festa  do  Espírito  Santo, e  ao  mesmo tempo, sofria  entre  os judeus  uma  transformação  semelhante; tornava-se  para eles  o aniversário  da  promulgação  da  lei  no  Monte Sinai."

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"Não  havia  um edificio  especificamente  construido  ou  alugado  para  as reuniões, não  havia  por  consequência  nenhuma  arte, nem  a  menor  imagem. Toda  e  qualquer  representação figurada  lembrava  o paganismo  e  era  considerada  como  idolatria.  (as  primeiras  pinturas  das catacumbas, além  de  muito  posteriores ao  primeiro  século, são  decorativas  e  não  pretendem  oferecer objetos  de culto).

As  assembléias  eram realizadas  na  casa dos  irmãos  mais  conhecidos, ou que  tinham  sala  apropriada. 

 Preferia-se assim,  o aposento  que  nas  casas  orientais  forma  o  andar  superior  e  corresponde  ao nosso  salão  nobre:  salas  espaçosas  e  altas, cheias  de janelas, muito arejadas, era aí  que se  recebiam  os amigos,  se  faziam  os  festins,  se  rezava  e se  depunham  os  mortos.

Os  grupos assim  formados  constituiam  as  "igrejas  domésticas" ou  núcleos  piedosos,  cheios  de  atividade  moral  e muito semelhantes  aos  colégios  domésticos  de  que , pela mesma  época, se  encontram  exemplos no  seio  da  sociedade  pagã.  Sem  dúvida, nas grandes cidades,  que  possuiam muitas  igrejas  domésticas, devia haver  igrejas  plenárias  em que  se  reunissem  todas  as  igrejas  parciais (Éfeso  que  tinha ao  menos  tres  igrejas  particulares, constitui no seu conjunto  apenas  um  única  igreja.  Corinto  tinha,  ao  que  parece,  apenas  uma igreja particular), mas  o espirito  do  tempo  inclinava-se  mais  para  as  pequeninas  sociedades.

O  triunfo  do  cristianismo  é  inexplicável  para  quem  o estudar  apenas  no século IV.  Com  o cristianismo ocorreu  o que  acontece sempre com as coisas  humanas: triunfou exatamente  quando,  do  ponto  de  vista  moral,  começava  a  declinar;  tornou-se oficial  quando  não era mais  do  que  um  resto  do que fora;  teve  a  sua  maior  popularidade 
quando  já havia  passado  o seu  verdadeiro  período  de  originalidade e de juventude,  mas  nem  por  isso  deixava  de    merecer  a sua  grande  recompensa, merecia-a  ainda  pelos  seus  tres  séculos  de  virtude, pela soma  incomparável  de tendências  para  o bem  que  conseguira despertar.