Módulo IV

 

 

História do  Cristianismo

Igrejas Primitivas

 

AUTORIA  e  IMAGENS:  LASTHENIA  DE  ALENCAR

PERÍODO: Fortaleza, Setembro  de  2009.

 

Síntese  da  obra  de  ERNEST  RENAN (HISTORIADOR), sobre

“PAULO  O  DÉCIMO  TERCEIRO  APÓSTOLO”  ressaltando  a  história da igreja  primitiva.


 

37

 

 

"Regressando  à  Antioquia, Paulo  entregou-se a  novos  projetos. Nessa  época,  a sinagoga, a igreja, eram  o que  o convento  irá  ser  mais  tarde  na    Idade  Média, ou  seja, a  casa  querida,  o centro das  grandes  afeições,  o teto  sob  o qual  se  abriga  o que  se  tem  de mais  amado.

Paulo  queria  tornar  a  ver  sua  queridas igrejas  da  Galácia,  para  as  confirmar  na  fé e  comunicar  suas  intenções  a Barnabé. Barnabé  propôs  a Paulo levarem  com eles  João  Marcos, mas  a  esta  proposta  Paulo  desagradou. Não  perdoava  a  João Marcos ter  abandonado  a  missão  em  Perge  no  momento em que  percorriam  a parte  mais  perigosa  da  viagem. Para  Paulo  ele parecia  indigno  de  ser  alistado  de  novo.  Barnabé  defendia  seu  primo. Esta  velha amizade  rompeu-se  por  algum  tempo  diante  dessa  discussão.

Barnabé  não tinha  a  natureza de  Paulo, mas  foi  ele  em  Jerusalém  que  desfez  as  desconfianças  a  respeito do  novo convertido; foi ele  quem  foi  buscar  em Tarso  o futuro  apóstolo, ainda  isolado e inseguro  sobre o seu  destino.

Separam-se  os  dois  apóstolos. Barnabé,  com  João  Marcos, embarcou  em  Seleucia  para  Chipre. A  história a  partir  daí  perde-o  de  vista. Enquanto  Paulo  caminha  para  a  glória,  o seu  companheiro, esquecido, vai  realizando  o seu  apostolado ignorado. 

 A enorme  injustiça  que  muitas  vezes  rege  as  coisas  deste  mundo  ocorre  também  na  história.  Os que  representam  o  papel  da  abnegação  e  do  sacrifício  são, via  de  regra , esquecidos.  O autor  dos  Atos com a sua  ingênua  política  de  reconciliação, sem  o  querer  sacrificou  Barnabé  ao  objetivo  de  reconciliar  Pedro  e Paulo. Daí surge  a  ignorância em  que  estamos  mergulhados  com relação  ao  apostolado  de  Barnabé, sabendo-se  apenas  que  este  apostolado  continuou  a ser  ativo."

38

"Barnabé manteve-se fiel as  grandes  regras  que  ele  e  Paulo tinham  estabelecido na  sua  primeira  missão. Assim,  vive  do  seu  trabalho, nada  aceitando  das  igrejas.

Em Antioquia voltará  a  encontrar-se  com  Paulo.  O caráter altivo  de  Paulo  criará entre  eles , mais  discórdia , mas  o sentimento  da  obra  santa  irá  tornar-se perfeita.

Trabalhando, cada  um  pelo  seu  lado, continuarão  interligados  dando-se  informações  dos  seus  trabalhos.

Paulo  continuará, apesar  das  maiores  divergências,  a  tratar  Barnabé sempre  como companheiro e  a  considerá-lo  integrante  da  obra  do  apostolado  dos gentios.

No lugar  de  Barnabé , Paulo  colocou  Silas,  o profeta  da  igreja  de  Jerusalém  que  havia  ficado  em  Antioquia  e dele  será  amigo.  Conta-se  que  Silas possuia  o título  de cidadão  romano.

Paulo  e  Silas  empreenderam  a  viagem  por  terra.

Paulo  reencontrou  suas  igrejas  na  situação em  que  as  deixara.  Os  fieis  tinham  perseverado,  o número  aumentara."

39

Timóteo era  apenas uma criança quando  da  primeira  viagem  de Paulo, tornará-se  um  grande  homem.

 A sua  piedade e  inteligência impressionaram  Paulo.  Todos  os fieis  da  Licaônia  prestavam  as melhores  informações  sobre  ele.

Timóteo era  um  homem  modesto e  tímido, faltava-lhe  a  autoridade ,em  especial  nos  países  gregos  em  que os  espíritos  eram  fúteis, mas  a sua  abnegação  fazia  dele  um  diácono  e  um  secretário único  para  Paulo, que  declara  não  ter  tido  outro  discípulo  tão  dentro  do  seu  coração. 

Paulo, aliando-se  a Timóteo,  previu  graves  embaraços, pois  receou  que  nas  relações com  os judeus,  o estado de  incircunciso  de  Timóteo  fosse  motivo  de   repulsão e de  dificuldades. Assim, circuncidou  Timóteo , segundo  ele, para  evitar  o escândalo  e  a  divisão.

Acabando  a  visita  das  principais  cidades  da  Galácia,  resolveu atingir  novas  terras.  O  Espírito  Santo, diz  o narrador  de  Atos, impediu-o  de ir  pregar  pela  Ásia.  Se julgava  que  os  apóstolos obedeciam, com  relação  ao  seu  itinerário,  a  inspirações  divinas.

A  crença  de  que  Deus  permitia  ao  homem  conhecer  as  suas  vontades  por meio  dos  sonhos  estava muito  difundida.

Um sonho, uma  impulsão  súbita, um  movimento irrefletido, um  ruído  inexplicável, pareciam manisfestações  do  Espírito  e  decidiam  o caminho  e  o sermão"

 

40

"O  grupo  apostólico fez,  quase  de uma  só  vez  uma  viagem  de mais  de  cem  léguas  através  de um  pais  pouco  conhecido  e  que, por  carência de  colônias romanas  e  de  sinagogas  judaicas,  não  lhes  oferecia  nenhuma  das  facilidades que  até  ali  tinham  encontrado. 

Estas longas  viagens  da Ásia Menor, cheias  de  melancolia  e sonhos  místicos, são  uma  mistura  única  de  tristeza  e  de  encanto.  Por  vezes  a estrada  é  desolada, certos lugares  são singularmente  áridos  e  despidos  de  vegetação; em  outras  partes , são  cheios  de  árvores.

Em  cada  fonte  a  caravana  pára  e  bebe.

  A viagem,  durante  dias  e  dias  por  estas  vias  estreitas  do  solo  antigo, que  há  séculos  tem  conduzido  viajantes  tão  diversos  são  deliciosas, uma parada  de  uma hora,  um  pedaço  de  pão  comido  as  margens  desses riachos  límpidos, correndo  em  leitos   de   pedregulho,  bastam  para  reanimar  por  muito  tempo  o  exausto  viajante.."

....

 

 

41 

"Em Troas,  Paulo  encontrou  um médico, prosélito incircunciso, chamado  Lucano ou  Lucas. Este  homem  a  quem estava  reservado  um  lugar  de destaque na história do  cristianismo , pois  ia  ser  o historiador  das  origens  cristãs e  que  os  seus  juízos, deveriam vir  a  regrar  as  idéias  que  se  formariam  a  respeito  dos  primeiros  tempos  da  igreja.

Lucas tinha  recebido  uma  educação judaica  e  helênica  muito  esmerada.Era  um homem  conciliador, uma  alma  terna, simpática, um caráter  modesto, evitando   aparecer.

 Lucas  era  muito  estimado  por  Paulo  e aquele  foi sempre  fiel  ao  mestre.

Como  Timóteo, Lucas parecia  ter sido  criado  para  ser  o companheiro  de  viagens  de Paulo. A submissão e  a confiança cega, a  admiração  ilimitada, a  dedicação  sem  reserva,  eram  os seus  sentimentos  habituais.

Um verdadeiro chefe  da sua  família, de que  é  como  o pai  espiritual judeu  de  coração, tendo-se  convertido  com toda  a  sua casa.

Estimava  os  oficiais  romanos,  em  cujas  virtudes  bondosamente  acreditava.  Uma  das coisas  que  mais  admira  é um bom  centurião, piedoso, benévolo  para  os judeus."

 

....

42

 

 

"O título de  médico  de Lucas, faz supor  que tinha  certos conhecimentos, o que  por  fim os  seus  escritos demonstrariam, mas  não  implica  uma  cultura científica  e racional, que  muitos  poucos  médicos possuíam  então.

Lucas é por  excelência ,  o "homem  de boa vontade",  o verdadeiro israelita  de  coração, aquele  a  que Jesus leva  a  paz.

Foi  Lucas  quem  nos transmitiu  e  provavelmente  compôs, esses  deliciosos cânticos do  nascimento e  da  infância  de  Jesus, esses hinos  dos anjos, de Maria, de  Zacarias, do velho  Simeão. 

 

 

43

"A missão  pisava  agora  em  um  chão totalmente  desconhecido. Eram  terras  que  pertenciam a província da  Macedônia; era  talvez  a região  mais  honesta, mais  séria  e  mais  sadia do  mundo antigo.  Os  macedônios  foram  o povo  da  antiguidade  que mais  se  assemelhavam  aos  romanos.

 O  pequeno  reino  da  Macedônia, sem  facções  nem  agitações, com a  sua  boa  administração interior,  foi a mais  sólida  nação  que os  romanos  tiveram  de  combater  no  Oriente.

Triste  e sério  o camponês macedônio nada  tem  da  elegância

e  da  delicadeza  do  grego.  As mulheres,belas  e  castas, trabalham no  campo  como  os  homens. É uma  boa  e  forte  raça, trabalhadora.

 Saidos  de  Troas, Paulo, Silas  e  Timóteo e  provavelmente  Lucas, navegaram com  bons  ventos  e  chegaram  mais  tarde   até  Filipos.

As minas  de ouro  que  nas  épocas  helênica e  macedônia fizeram  a  celebridade do lugar, estavam  nessa  época  quase  abandonadas.

Filipos era  constituída  por  uma população muito  trabalhadora, vivendo  na ordem  e  na  paz  e  muito  religiosa. Cresciam confrarias. Nesses  lugares  em  Filipos  o politeísmo  era  menos  complicado  do  que  em  outras  partes . Algumas práticas  continham  em  si  os  germes  do  monoteísmo.Um gesto  de  simplicidade infantil já  preparava  o  caminho  do  evangelho. Filipos  oferecia   à  missão  um  lugar  apropriado . Conforme já  visto  na Galácia as colônias  romanas   acolheram  muito  bem  a  boa  doutrina, a mesma coisa  iremos ver  em  Corinto  e  em  Alexandria Troas."

44

 

"A  judiciária de  Filipos, se é  que existia alguma, era pouco importante, o sábado era  celebrado por algumas pessoas,mas parece  que  não  existia nenhuma  sinagoga. Quando  o grupo  apostólico entrou  na  cidade  estava-se nos primeiros  dias  da semana. Assim,  como  era costume  esperaram  o  sábado.

Lucas,  que  conhecia  o país, lembrou-se  de  que as pessoas convertidas aos  costumes  dos  judeus,  tinham  o  hábito  de se  reunir nesse  dia  fora  da  cidade,na margem  de  um  pequeno  rio. Pode-se afirmar que  a cena  pacifica  contada  nos  Atos  e  que  assinalou  o primeiro estabelecimento  do  cristianismo  na  Macedônia, ocorreu  no mesmo lugar  onde  um  século  antes se  decidiria  a sorte  do  mundo, na grande  batalha  do ano  42 antes  de  Cristo, onde  se dividia  a  gente  de Bruto  e  de  Cássio.

Nas  cidades  em  que  não  existia  sinagoga, as reuniões  dos  seguidores  do  judaísmo  faziam-se  em  pequenas  edificações  descobertas, em  pleno ar  livre, em  espaços  apenas circundados, situados  perto  do  mar.

Os  apóstolos  dirigiram-se  para  o local  indicado.

Muitas mulheres  tinham  vindo, com  efeito  e  os  apóstolos  falaram-lhes  anunciando  o ministério  de  Jesus.

Uma mulher  ficou  muito  impressionada.  O Senhor , diz o narrador  dos  Atos  abriu o seu  coração.

Era  Lídia  ou  Lidiana.

Pessoa piedosa, pagã  pelo  nascimento  mas  observando  os  preceitos "de  Noé".

Lídia  submeteu-se  ao  batismo  com  toda  sua  família e ofereceu  abrigo  aos quatro  missionários  em  sua  casa.

Assim,  formou-se  uma  pequena igreja, quase  toda  composta de  mulheres, uma  igreja  muito  piedosa e  dedicada."

 

 

45

 

"Além  de  Lídia, esta  igreja de  Filipos contava  com Evódia e  Sìntece ,  que  combateram valentemente  com  os  apóstolos  em  favor  do  evangelho,  mas  que tinham por vezes  suas  disputas,devido  ao  seu  ministério  de diaconisas.

Havia  também  Epafrodite  homem  corajoso, companheiro  de  armas, Clemente  e  outros.

Esta  foi  a  única igreja de  que  Paulo aceitou  ajuda  financeira, porque era  rica  e pouco  sobrecarregada  de  judeus  pobres. Lídia foi , sem  dúvida  a principal  autora  destas  dádivas.

Talvez  não  seja  mesmo  muito  audacioso  supor  que  é  a  Lídia  que  Paulo, na  sua  Epístola  aos  Filipenses, chama  "  minha  querida  esposa".  É  absolutamente  impossível  que  Paulo tenha  contraído  com  esta mulher  uma  união  mais  íntima?  Não  podemos  afirmá-lo. O  que  se sabe  é  que  ele  não  levava  companheira em  suas  viagens.  Não  obstante, isto, um  ramo  da  tradição  eclesiástica, acreditou  que ele  era  casado. 

Ia  se  definindo  o caráter  da mulher  cristã.  Entusiasmadas ,alegres, ativas, distintas, algumas  abertas   e discretas  no  entanto, não  dificultando nunca  a ação de  seu  mestre,  capazes  do  que  há  de  maior.

A "servente"  ou diaconisa  grega  ultrapassa  em  coragem  a  síria  e  a  da  Palestina. Estas mulheres  guardiãs  dos segredos  da  igreja, corriam  os maiores  perigos,preferiam  suportar  todos os  tormentos  a  revelar  qualquer coisa. Exatamente porque não  falavam  dos  seus direitos  fizeram  mais  do  que  os  homens, com  o ar  de  se  limitar  a  servi-los."

...

 

  46

 

"Um incidente veio apressar  a  partida  do  grupo  de  apóstolos no momento  em  que  a  cidade  começava  a  notar-lhes  a  presença.  Um  dia  em que  se  dirigiam  para o  local  das preces  encontraram uma  jovem  escrava  que  se  passava  por  pitonisa.  Os  seus patrões  ganhavam  muito dinheiro  com  esta  exploração.  Quando  ela  viu  os  missionários  começou  a gritar  e  a  segui-los.  Paulo  fez  um  exorcismo  e  esta  acalmou-se, julgando-se liberta  do  espírito  que  há  obsediava,  mas  seus  patrões  abriram  um  processo  contra  Paulo  e  Silas. A  população  supersticiosa, excitada  pelos  patrões  fez  uma  manifestação hostil  aos  apóstolos.

Paulo  e  Silas  foram  condenados  a  chibatadas, presos  e acorrentados. E não  se valeram  do seu  título  de  cidadão  romano.  Somente no cárcere  o revelaram  ao  carcereiro, que    lavou  suas feridas  e  deu-lhes  comida.  Os  prisioneiros foram  postos  em  liberdade  mas  deveriam  partir.  A lei  Valeria  e  a  Porcia  eram  formais; a  aplicação  de pancadas  em  um  cidadão  romano  constituí  a  para  o  magistrado  um  delito grave.

Livres  os   dois  dirigiram-se  á  casa  de  Lígia. Lá dirigiram  aos  irmãos  as  últimas  exortações  e  partiram. 

Timóteo  e Lucas  permaneceram  em  Filipos.

Lucas  devia  retornar  a  ver  Paulo  após  cinco  anos."