Módulo VIII

 

 

História do  Cristianismo

Igrejas Primitivas

 

AUTORIA  e  IMAGENS:  LASTHENIA  DE  ALENCAR

PERÍODO: Fortaleza, Setembro  de  2009.

 

Síntese  da  obra  de  ERNEST  RENAN (HISTORIADOR), sobre

“PAULO  O  DÉCIMO  TERCEIRO  APÓSTOLO”  ressaltando  a  história da igreja  primitiva.



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"A  vida  apostólica  de  Paulo  atinge  o seu  mais  elevado  grau  de atividade  em  Corinto.  Aos encargos  da numerosa cristandade  que  andava  empenhado  em fundar ,vieram  juntar-se  as  preocupações  das comunidades  que  deixava  atrás  de  si.  Nesse  momento  pensava  mais  em  cuidar das  igrejas  que  tinha  criado , do que  fundar  novas  igrejas.

Paulo  concebeu  a idéia  de  sanar, pela correspondência,  o que  lhe  era  impossível fazer,  por  si  mesmo,  ou  por  seus  principais  discípulos. No  império  romano  não  havia  nada  que  se  assemelhasse  aos nossos  correios. Assim,  Paulo  levava  consigo  algumas  pessoas  que  lhe serviam  de  "carteiros".  A  correspondência  entre  sinagogas  já  existia  no  judaísmo.  O gênero epistolar  constituia, entre  os judeus , um  gênero  literário  que  continuou  através  da  Idade  Média, como  consequência  da sua  dispersão. 

Desde  a  época  em  que  o cristianismo   se dissiminou  em  toda a  Síria  começou, sem  dúvida,  a troca de  epístolas  cristãs; mas  nas  mãos  de  Paulo  estes  escritos,  que  até  então  ninguém  conservava  muito  tempo  foram  da mesma  forma que  a sua palavra,  o  instrumento  do  progresso  da  fé cristã.  Considerava-se  que  a  autoridade  das  epístolas  igualava-se a do  próprio  apóstolo;  cada uma  das  cartas deve  ter sido  lida  perante  a igreja  reunida;  algumas  tiveram  o  caráter  de cartas circulares  ou  seja,  foram  transmitidas  sucessivamente  a  muitas  igrejas.

A  leitura  da correspondência  tornou-se  deste  modo, uma  arte  essencial  do  ofício  do  domingo.  Era guardada  nos  arquivos  da igreja,  para ser lida  como um  documento  sagrado  e um  perpétuo  ensinamento  em  todos os dias  de  reunião.  A  epístola  tornou-se  assim  a forma  da literatura  cristã  primitiva, perfeitamente  apropriada  à  situação  do tempo  e  às  aptidões  naturais  de  Paulo.

O  cristianismo  nascente  esteve  inteiramente  desprovido  de  textos. 

 Todos acreditavam  viver  na  véspera  da  catástrofe  final.  Os  livros  sagrados,   a  que  chamavam  "  as  Escrituras"  era,  os  da  antiga  lei,  Jesus  não  lhes  juntara  um  livro  novo,  devia  regressar  para  acabar  com  "as  antigas Escrituras"  e  iniciar  uma  era  nova.  Nesse  contexto, cartas  de  consolação  e de  incitamento  foram  o que  se  pode    produzir.  Se existia  algum  livro  destinado  a auxiliar  a memória  sobre  " os  ditos  e fatos" de  Jesus, não  eram  escrituras  autênticas  oficias, universalmente  reconhecidas  na  comunidade, eram  anotações  de  que  faziam  pouco  caso as  pessoas  que  estavam  informadas  das coisas, julgando-as  muito  inferiores  à  tradição,  com  relação  à  autoridade.

Paulo  não  possuía grande  inclinação  para  a  redação de livros.  A correspondência,  ao  contrário  combinava  com  a  sua  atividade  febril,  a  sua  necessidade  de  exprimir  no  próprio  momento  as  suas  impressões.  Simultaneamente  viva,  rude,  polida,  maliciosa,  sarcástica, terna,  delicada, quase inquieta  e  indolente.  Devia  o  apóstolo  brilhar  num  gênero  que exige , como  principal  condição  a espontaneidade.  O  estilo  epistolar  de  Paulo  é  o mais pessoal  possível.

 Muito  cedo  Timóteo  começou  a desempenhar o papel,  junto  ao  mestre,  de  secretário.  É  provável  que  nas  Epístolas, e  talvez  nos  Atos,  exista  mais  de  uma  página  de  Timóteo. Paulo,  não  escrevia  pela  sua própria mão,  ditava. Por  vezes, quando a  carta já  estava  concluída,  relia , fazia correções  e acréscimos  marginais,  muitas  vezes  com  risco  de  alterar  o contexto  e  produzir  frases  soltas  ou  emaranhadas.  Enviava  a  carta  assim  emendada.

Para  evitar as fraudes  numerosas,  Paulo  costumava enviar  às igrejas  um exemplar  da seus  escritos,  que era  fácil  de reconhecer, depois escrevia  de  próprio  punho  no fim  das suas  cartas, algumas  linhas  para garantir  a  autenticidade  de todo  o texto."..

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"A correspondência de  Paulo  foi  grande, restando  dela  apenas  uma  pequena  parte. A  religião  das  igrejas  primitivas  estava  tão  distante  das coisas  materiais, era  tão  idealista  que  não    pensaram  no  imenso  valor  de  tais  escritos.  A fé  era  tudo,  trazendo-a  cada  um  no  coração,  pouco se  importando  com as folhas  de  papiro.

Estas  epístolas, na sua  maior  parte  registros de acontecimentos,  ninguém  imaginava  que  um  dia  viessem  a  ser  livros  sagrados.  Apenas  no fim  da  vida  do apóstolo  foi  que  se pensou  em  conservar  as suas  cartas, estimando-as  pelo  que elas valiam.  Cada  igreja  guarda  então  preciosamente  as  suas,  consultando-as  com  frequência, faz delas  leituras  regulares e  deixa  tirar  cópias,  mas uma grande  quantidade  do  primeiro  período  estava  definitivamente  perdida.

Quanto as  cartas  ou  respostas  das  igrejas,  todas  encontram-se  desaparecidas,  como  não  podia  deixar  de  ser,  pois  Paulo,  na  sua vida  errante, nunca  teve  outros  arquivos  além  da  sua  memória  e  do  seu  coração.

Da  segunda  missão  sobraram  apenas  duas cartas;  são  as  epístolas  à  igreja  de  Tessalônica.    Paulo  escreveu  a  primeira  de  Corinto.  A  segunda  considera-se  ter  sido  em  Beréia,  mas  por  certos trechos, deduz-se  que  Paulo   deixara  há  muito  a  Tessalônica,  quando  a escreveu.

A  segunda  epístola  parece ter sido  escrita  primeiro.  Na classificação  das  cartas  de Paulo,  a  regra seguida  foi  sempre  a  de  dar  o primeiro  lugar  a  mais  longa.  Em  ambas na  subscrição associou  ao  seu  nome  os de  Silas  e  Timóteo.  Deviam  ter  sido  escritas  com  pequeno 

intervalo  uma  da  outra. As  cartas  aos  tessalonicenses  são cheias  de  unção, de  ternura,  de emoção  e  de encanto. Nelas  Paulo  não  oculta  a  sua  preferência  pelas  igrejas  da  Macedônia, servindo-se  das  expressões  mais  entusiasmadas,  das  imagens  mais  carinhosas.

Paulo  realmente foi  para  as  igrejas  que fundou  um  missionário admirável, mas  sobretudo  um  admirável  diretor  de  consciências. 

 Nunca  ninguém  se  encarregara  melhor  das almas;  nunca  ninguém  tratara  o problema  da  educação  de  uma  maneira  mais  ativa  e  mais  íntima. 

 Porém, não  se  deve considerar  que  todo  esse  predomínio  foi  conquistado  pela  doçura  e  benevolência. 

Não,  Paulo  era  rude, antipático ,  e algumas vezes  irascível.  Em  nada  se  parecia  com  Jesus;  não  tinha  a  sua adorável  indulgência,  a sua  tendência  para  tudo  perdoar,  a  sua  divina  incapacidade  de  reconhecer o mal.

Paulo era  quase  sempre  imperioso,  e  fazia  sentir  a  sua autoridade  com  uma  preponderância  que  chega  a  impressionar.  Ordena, repreende  com  dureza,  fala  de  si  mesmo  com  a  maior  segurança  e  indica-se  a cada  passo e  sem  hesitações  como  exemplo.

Mas  que  grandeza!  Que  pureza!  Que  desinteresse! 

 Dez  vezes com  a  maior altivez, ele  repete  este pormenor,  de  que  nada  custou  a  ninguém,  que  não comeu  de  graça  o pão,  que  trabalhou dia  e  noite  como  operário,  embora  tendo  podido  fazer  como  os outros  apóstolos e  viver  do  altar."

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"A felicidade,  a  inocência,  o  espírito  fraternal,  a  caridade  ilimitada destas primitivas igrejas  constituíram  um  espetáculo  que  não  se  repetirá.  Tudo  era  espontâneo,  sem  constrangimento  e, no  entanto, estas  pequenas  associações eram  sólidas  como   o ferro:  não  somente  resistiam  às  perpétuas  oposições  dos  judeus,  como   tinham  uma  organização  interior  maravilhosa.

Os  membros  mais  antigos, os  mais  ativos,  os  que  tinham  relações  pessoais  com  o  apóstolo  gozavam  de  uma  certa  precedência  nessas  igrejas; mas Paulo  era  o primeiro  a  repelir  tudo  o que  se  assemelhasse  a uma  chefia;  ele  insistia  em  não  ser  senão  o "promotor " da  alegria  comum.

As vezes  os  antigos  eram eleitos  por  votação, feita  com as  mãos  erguidas, outras  vezes  estabelecidos  pelos  apóstolos, mas sempre  considerados  como  eleitos  do Espírito,  isto é por esse  instinto  superior  que  dirigia  a  igreja  em  todos  os  seus atos.  Começavam  já  a  denominar-se  "vigilantes" (episcopi)  e, a  serem  considerados  como  "pastores"  encarregados  de  conduzir a igreja. 

 Outros tinham  a  especialidade do ensino: eram os catequistas,  que  iam  de  casa em casa, transmitindo  a palavra de Deus  e,  em alguns casos,  Paulo estabelecia que  o catecúmeno,  enquanto  realizava a sua instrução, devia  por  tudo  o que  possuía  em  comum  com  o seu  catequista. 

 A autoridade plena  pertencia  à  igreja  reunida  e  essa  autoridade  abrangia inclusive  o  que havia de  mais  íntimo  na  vida  particular. 

Todos  os irmãos  se  vigiavam  e  se  repreendiam  uns  aos  outros.  A  assembléia  da igreja  ou  os  chamados  "espirituais"  faziam  reprimendas  aos que  estivessem  em  falta,  encorajavam  os  desalentados, como  hábeis  diretores, com  grande conhecimento  do  coração  humano.  Ainda  não se  havia  regulado  as  "penitências"  públicas.  Como 

nenhuma  força  exterior  continha os  fiéis, impedindo-os   de  se  dividirem  e  abandonarem  a  igreja,  poder-se-ia  julgar  que uma  tal  organização, que  nos  parece  insuportável,  em  que  nada  vemos  senão  um sistema  organizado  de espionagem  e  de  delação, ter-se-ia  destruído  rapidamente. Não é  nada disso. Não  se  vê, nessa  época,  um  único  exemplo  de  apostasia,  todos  se  submetem  humildemente  à  sentença da  igreja.

Aquele  cuja  conduta fosse  incorreta,  ou  se  separasse  da  tradição  do  apóstolo,  ou  que não  obedecesse  as  suas cartas, era  logo  delatado; dai em  diante  era evitado  e  isolado.  Era  tratado  como  um  inimigo,mas  advertiam-no  como  a um  irmão.  Este  isolado  cobria-se  de  vergonha  e  logo  voltava  arrependido  para junto  dos fiéis."

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"Era  grande  a  jovialidade destas  pequenas  comunidades, vivendo juntos  sempre  cuidadosos, ocupados, cheios  de  entusiasmo.  Nas  pequenas  comunidades existia  um grande  horror  pelo  paganismo, mas  muita  tolerância  para com  os  pagãos  e em  vez  de os  repelir, procuravam  atraí-los  e conquistá-los.   

Um  profundo  sentimento  de  solidariedade  dominava  a todos:  o filho  salvava-se  pelos  pais,  o pai  pelo  filho,  o marido  pela  mulher.

Ninguém  podia  aceitar  a idéia  de prejudicar  qualquer  pessoa  de boa  índole  e  que, pela  sua  vida  virtuosa, não  contradizia  as  idéias  santas.

Os  costumes  eram  severos, mas não eram  tristes; desconhecia-se  a  virtude  rígida  e  mortificante  como alguns pregam  como  virtude  cristã. 

As  relações  entre  homens  e  mulheres  não eram  proibidas.  A nudez  pagã era  proibida.

Podia-se  dizer  que  o cristianismo  primitivo  foi  uma  espécie  de romantismo  moral. O  mal  era  por se dizer  nesse  época, impossível  no  núcleo  da  igreja.

O  trabalho  de  catequista  muitas  vezes  cabia as mulheres.  As  segundas núpcias, não  eram  proibidas, mas eram  consideradas  como uma  imperfeição. 

 O  sentimento  popular do  século  era  assim.

O espírito  de  família, a  união  do  marido e da mulher,  a sua  estima  recíproca,  o reconhecimento  do  marido  por  cuidar  em  manter  sua mulher, transparecem  de uma  maneira  significativa  nas inscrições judaicas. 

 As  idéias  mais  elevadas  a respeito  da santidade  do casamento, espalharam-se  pelo  mundo e  por  um  povo  em  que a  poligamia  nunca foi  universalmente  proibida.  Cabe admitir,  que  na  fração  da sociedade judaica  em  que  o  cristianismo  se  constituiu,  a  poligamia foi abolida  realmente. 

A caridade,  o amor  dos irmãos era a lei  suprema,  comum  a  todas as  igrejas  e a todas as  escolas.

Ordenava-se que  se fizesse bem  a todas  as  pessoas;  o  gosto  pelo trabalho  era considerado  uma  virtude. Paulo, como  bom trabalhador, repreendia  energicamente a preguiça  e  a ociosidade, e  repetia  constantemente  esse  ingênuo  provérbio  do homem  do  povo:

 "que todo   o que  não  trabalhe  não coma".

Nessa  época  a  igreja  é uma  associação  de bons  trabalhadores,  alegres, contentes, sem  inveja  dos ricos,  porque  são  mais  felizes  do que eles,  porque  sabem  que  Deus  não  julga  como  os  homens  e  prefere  a honesta  mão  cheia  de  calos  à  mão  branca  do  intrigante.

Como  nós  estamos  distantes do ideal primitivo  da  igreja  de  Jerusalém,  ou  mesmo  da  Antioquia,  preocupadas  com as  profecias, com  os  dons  sobrenaturais  e  com  o  apostolado"