Síntese
da obra de ERNEST RENAN
(HISTORIADOR), sobre
“PAULO
O DÉCIMO TERCEIRO
APÓSTOLO” ressaltando
a história da igreja primitiva.
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"A vida
apostólica de Paulo atinge o seu mais
elevado grau de atividade em Corinto. Aos
encargos da numerosa cristandade que andava
empenhado em fundar ,vieram juntar-se as
preocupações das comunidades que deixava atrás
de si. Nesse momento pensava
mais em cuidar das igrejas que
tinha criado , do que fundar novas igrejas.
Paulo concebeu a
idéia de sanar, pela correspondência, o
que lhe era impossível fazer, por si
mesmo, ou por seus principais discípulos.
No império romano não havia nada que
se assemelhasse aos nossos correios. Assim, Paulo
levava consigo algumas pessoas que lhe
serviam de "carteiros". A
correspondência entre sinagogas já existia
no judaísmo. O gênero epistolar constituia, entre os
judeus , um gênero literário que continuou
através da Idade Média, como consequência da
sua dispersão.
Desde a época
em que o cristianismo se dissiminou em toda
a Síria começou, sem dúvida, a troca de
epístolas cristãs; mas nas mãos de Paulo
estes escritos, que até então ninguém
conservava muito tempo foram da mesma forma
que a sua palavra, o instrumento do
progresso da fé cristã. Considerava-se que
a autoridade das epístolas igualava-se a do
próprio apóstolo; cada uma das cartas deve ter
sido lida perante a igreja reunida; algumas
tiveram o caráter de cartas circulares ou
seja, foram transmitidas sucessivamente a
muitas igrejas.
A leitura da correspondência
tornou-se deste modo, uma arte essencial do
ofício do domingo. Era guardada nos
arquivos da igreja, para ser lida como um
documento sagrado e um perpétuo ensinamento em
todos os dias de reunião. A epístola tornou-se
assim a forma da literatura cristã primitiva,
perfeitamente apropriada à situação do tempo
e às aptidões naturais de Paulo.
O cristianismo
nascente esteve inteiramente desprovido de
textos.
Todos acreditavam
viver na véspera da catástrofe final.
Os livros sagrados, a que chamavam
" as Escrituras" era, os da
antiga lei, Jesus não lhes juntara um
livro novo, devia regressar para acabar
com "as antigas Escrituras" e iniciar
uma era nova. Nesse contexto, cartas de
consolação e de incitamento foram o que se
pode produzir. Se existia algum livro
destinado a auxiliar a memória sobre " os
ditos e fatos" de Jesus, não eram escrituras
autênticas oficias, universalmente reconhecidas na
comunidade, eram anotações de que faziam
pouco caso as pessoas que estavam
informadas das coisas, julgando-as muito inferiores
à tradição, com relação à autoridade.
Paulo não possuía
grande inclinação para a redação de livros. A
correspondência, ao contrário combinava com
a sua atividade febril, a sua
necessidade de exprimir no próprio momento
as suas impressões. Simultaneamente viva, rude, polida, maliciosa,
sarcástica, terna, delicada, quase
inquieta e indolente. Devia o apóstolo
brilhar num gênero que exige , como principal
condição a espontaneidade. O estilo epistolar
de Paulo é o mais pessoal possível.
Muito cedo
Timóteo começou a desempenhar o papel, junto ao mestre,
de secretário. É provável que nas
Epístolas, e talvez nos Atos, exista mais de uma
página de Timóteo. Paulo, não escrevia pela
sua própria mão, ditava. Por
vezes, quando a carta já estava concluída, relia , fazia correções e
acréscimos marginais, muitas vezes com
risco de alterar o contexto e produzir
frases soltas ou emaranhadas. Enviava a
carta assim emendada.
Para evitar as fraudes
numerosas, Paulo costumava
enviar às igrejas um exemplar da seus escritos,
que era fácil de reconhecer, depois escrevia de
próprio punho no fim das suas cartas, algumas
linhas para garantir a autenticidade de todo o
texto."..
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"A correspondência de Paulo
foi grande, restando dela apenas uma
pequena parte. A religião das igrejas
primitivas estava tão distante das coisas
materiais, era tão idealista que não
pensaram no imenso valor de tais
escritos. A fé era tudo, trazendo-a cada
um no coração, pouco se importando com as
folhas de papiro.
Estas epístolas, na sua maior
parte registros de acontecimentos, ninguém imaginava
que um dia viessem a ser livros
sagrados. Apenas no fim da vida do apóstolo
foi que se pensou em conservar as suas
cartas, estimando-as pelo que elas valiam. Cada
igreja guarda então preciosamente as suas,
consultando-as com frequência, faz delas leituras
regulares e deixa tirar cópias, mas uma grande
quantidade do primeiro período estava
definitivamente perdida.
Quanto as cartas ou
respostas das igrejas, todas encontram-se
desaparecidas, como não podia deixar de
ser, pois Paulo, na sua vida errante, nunca
teve outros arquivos além da sua
memória e do seu coração.
Da segunda missão sobraram
apenas duas cartas; são as epístolas à
igreja de Tessalônica. Paulo escreveu
a primeira de Corinto. A segunda
considera-se ter sido em Beréia, mas
por certos trechos, deduz-se que Paulo
deixara há muito a Tessalônica, quando
a escreveu.
A segunda epístola parece ter
sido escrita primeiro. Na classificação das
cartas de Paulo, a regra seguida foi sempre
a de dar o primeiro lugar a mais
longa. Em ambas na subscrição associou ao
seu nome os de Silas e Timóteo.
Deviam ter sido escritas com pequeno
intervalo uma da outra. As
cartas aos tessalonicenses são cheias de unção,
de ternura, de emoção e de encanto. Nelas
Paulo não oculta a sua preferência
pelas igrejas da Macedônia, servindo-se das
expressões mais entusiasmadas, das imagens
mais carinhosas.
Paulo realmente foi para as
igrejas que fundou um missionário admirável, mas sobretudo um admirável
diretor de consciências.
Nunca ninguém se
encarregara melhor das almas; nunca ninguém
tratara o problema da educação de uma
maneira mais ativa e mais íntima.
Porém, não se deve considerar
que todo esse predomínio foi conquistado
pela doçura e benevolência.
Não, Paulo era
rude, antipático , e algumas vezes irascível.
Em nada se parecia com Jesus; não
tinha a sua adorável indulgência, a sua tendência
para tudo perdoar, a sua divina
incapacidade de reconhecer o mal.
Paulo era quase sempre
imperioso, e fazia sentir a sua autoridade
com uma preponderância que chega a
impressionar. Ordena, repreende com dureza, fala
de si mesmo com a maior segurança
e indica-se a cada passo e sem hesitações
como exemplo.
Mas que grandeza! Que
pureza! Que desinteresse!
Dez vezes com a maior
altivez, ele repete este pormenor, de que
nada custou a ninguém, que não comeu
de graça o pão, que trabalhou dia e
noite como operário, embora tendo podido
fazer como os outros apóstolos e viver do
altar."
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"A felicidade, a inocência,
o espírito fraternal, a caridade ilimitada destas
primitivas igrejas constituíram um espetáculo que
não se repetirá. Tudo era espontâneo,
sem constrangimento e, no entanto, estas pequenas
associações eram sólidas como o ferro: não
somente resistiam às perpétuas oposições
dos judeus, como tinham uma
organização interior maravilhosa.
Os membros mais antigos, os
mais ativos, os que tinham relações
pessoais com o apóstolo gozavam de
uma certa precedência nessas igrejas; mas Paulo
era o primeiro a repelir tudo o que
se assemelhasse a uma chefia; ele insistia
em não ser senão o "promotor " da
alegria comum.
As vezes os antigos eram
eleitos por votação, feita com as mãos erguidas,
outras vezes estabelecidos pelos apóstolos, mas
sempre considerados como eleitos do Espírito,
isto é por esse instinto superior que dirigia
a igreja em todos os seus atos.
Começavam já a denominar-se "vigilantes" (episcopi)
e, a serem considerados como "pastores"
encarregados de conduzir a igreja.
Outros tinham a especialidade do
ensino: eram os catequistas, que iam de casa em
casa, transmitindo a palavra de Deus e, em alguns
casos, Paulo estabelecia que o catecúmeno, enquanto
realizava a sua instrução, devia por tudo o que possuía
em comum com o seu catequista.
A autoridade plena pertencia
à igreja reunida e essa autoridade abrangia
inclusive o que havia de mais íntimo na
vida particular.
Todos os irmãos se
vigiavam e se repreendiam uns aos
outros. A assembléia da igreja ou os
chamados "espirituais" faziam reprimendas aos
que estivessem em falta, encorajavam os
desalentados, como hábeis diretores, com grande
conhecimento do coração humano. Ainda não
se havia regulado as "penitências"
públicas. Como
nenhuma força exterior continha
os fiéis, impedindo-os de se dividirem
e abandonarem a igreja,
poder-se-ia julgar que uma tal organização,
que nos parece insuportável, em que
nada vemos senão um sistema organizado de
espionagem e de delação, ter-se-ia destruído
rapidamente. Não é nada disso. Não se vê,
nessa época, um único exemplo de
apostasia, todos se submetem humildemente à
sentença da igreja.
Aquele cuja conduta fosse
incorreta, ou se separasse da tradição
do apóstolo, ou que não obedecesse as suas
cartas, era logo delatado; dai em diante era
evitado e isolado. Era tratado como
um inimigo,mas advertiam-no como a um
irmão. Este isolado cobria-se de vergonha
e logo voltava arrependido para junto dos
fiéis."
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"Era grande a jovialidade
destas pequenas comunidades, vivendo juntos sempre
cuidadosos, ocupados, cheios de entusiasmo. Nas
pequenas comunidades existia um grande horror
pelo paganismo, mas muita tolerância para com
os pagãos e em vez de os repelir,
procuravam atraí-los e conquistá-los.
Um profundo sentimento de
solidariedade dominava a todos: o filho
salvava-se pelos pais, o pai pelo filho, o
marido pela mulher.
Ninguém podia aceitar a
idéia de prejudicar qualquer pessoa de boa
índole e que, pela sua vida virtuosa, não
contradizia as idéias santas.
Os costumes eram severos, mas não
eram tristes; desconhecia-se a virtude rígida
e mortificante como alguns pregam como virtude
cristã.
As relações entre homens
e mulheres não eram proibidas. A nudez pagã
era proibida.
Podia-se dizer que o
cristianismo primitivo foi uma espécie de
romantismo moral. O mal era por se dizer
nesse época, impossível no núcleo da igreja.
O trabalho de catequista
muitas vezes cabia as mulheres. As segundas núpcias,
não eram proibidas, mas eram consideradas como
uma imperfeição.
O sentimento popular do
século era assim.
O espírito de família, a
união do marido e da mulher, a sua estima
recíproca, o reconhecimento do marido por
cuidar em manter sua mulher, transparecem de uma
maneira significativa nas inscrições judaicas.
As idéias mais
elevadas a respeito da santidade do casamento,
espalharam-se pelo mundo e por um povo
em que a poligamia nunca foi universalmente
proibida. Cabe admitir, que na fração da
sociedade judaica em que o cristianismo se
constituiu, a poligamia foi abolida realmente.
A caridade, o amor dos irmãos era a
lei suprema, comum a todas as igrejas e a
todas as escolas.
Ordenava-se que se fizesse bem a
todas as pessoas; o gosto pelo trabalho era
considerado uma virtude. Paulo, como bom trabalhador,
repreendia energicamente a
preguiça e a ociosidade, e repetia constantemente
esse ingênuo provérbio do homem do povo:
"que todo o que
não trabalhe não coma".
Nessa época a igreja é
uma associação de bons trabalhadores, alegres,
contentes, sem inveja dos ricos, porque são
mais felizes do que eles, porque sabem que
Deus não julga como os homens e
prefere a honesta mão cheia de calos
à mão branca do intrigante.
Como nós estamos distantes do
ideal primitivo da igreja de Jerusalém, ou
mesmo da Antioquia, preocupadas com as profecias,
com os dons sobrenaturais e com o
apostolado"