Módulo X

 

 

História do  Cristianismo

Igrejas Primitivas

 

AUTORIA  e  IMAGENS:  LASTHENIA  DE  ALENCAR

PERÍODO: Fortaleza, Setembro  de  2009.

 

Síntese  da  obra  de  ERNEST  RENAN (HISTORIADOR), sobre

“PAULO  O  DÉCIMO  TERCEIRO  APÓSTOLO”  ressaltando  a  história da igreja  primitiva.



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"Em  Jerusalém  Paulo  não  encontrára, sob  o nome  de  parentes de  Jesus, senão  judeus.  Nessa  época,  o  chefe  da  igreja  era  Tiago.  A   autoridade  de  Pedro  não  tinha diminuido  com isso, mas ele  deixara  de  residir  permanentemente  na  cidade. Imitando  Paulo, abraçara  a vida apostólica  ativa. 

 A  idéia  de  que  Paulo  era  o apóstolo dos gentios  e  Pedro   da  circuncisão,  crescia  cada  vez  mais.  Pedro  ia  evangelizando  os  judeus  da  Síria  e  levava  com  ele  uma   companheira,  esposa  e diaconisa. Dando  o exemplo  de  apóstolo  casado   o  qual  os missionários   protestantes  haviam  de seguir  mais  tarde.  João  Marcos  aparece  também  com o seu discipulo, companheiro  e  intérprete  do  grego.

As particularidades  das  perigrinações  de  Pedro  são  desconhecidas. O  que  delas  mais  tarde  se  narrou  é  em  grande parte  fábula.  Apenas  sabemos  que  sua vida  como  a  de Paulo  foi  foi  uma  série de  provações.  Pode-se acreditar  que  o itinerário  que  serve  de base  aos  atos fabulosos  de  Pedro (Jerusalém, Cesaréia,  Tiro, Sídon ,Bérito.. Antioquia)  não seja  imaginário.  Sem dúvida ele  visitou  Antioquia.

            Tiago  se tornou  "bispo  dos  hebreus",  ou seja,  da parte  dos discipulos  que  falavam a lingua  semítica, uma vez  que Pedro  deixou  de  ser  o chefe-residente da  igreja  de  Jerusalém.  Não  era  mais  Pedro, pois chefe  da  igreja  universal,  pois  Jerusalém  continuava  a  ser  o centro  da cristandade. 

Tiago  era,  além  disso, bastante idoso  e  se  diz  orgulhoso, teimoso.  Em  muitos  aspectos  era  respeitável, tendo-se convertido depois da  morte de  Jesus.  Era  conhecido como  "  o  irmão  do  Senhor,  ou  "O  justo"  ou  "amparo  do  povo",  era  o representante  na  igreja de  Jerusalém  do partido  judeu mais  intolerante.  Enquanto  os  apóstolos  ativos  percorriam  o mundo  para  o  conquistar  para  Jesus,  em  Jerusalém  se  fazia  de  tudo para  destruir  sua  obra  e  contradizer  Jesus  depois da  sua  morte.

Esta  sociedade  de  fariseus  mal convertidos ,  este  mundo  na realidade  mais judeu  do  que  cristão, vivendo  à volta do  templo, conservando as antigas  práticas  da  piedade  judáica, como  se  Jesus  não as tivesse declaro  vãs, constituia uma companhia  insuportável  para Paulo.

Os judeus da estrita observância, os seguidores  de  Tiago  não  queriam  que  se  angariassem  prosélitos.  Viam-se  ultrapassados  e  em  vez  de  se  lançarem  aos pés de  Paulo,  reconhecidos,  tomavam-no  por  agitador.  Paulo  evitando que  o rompimento  ocorresse, partiu o mais depressa  possivel  para  a  Antioquia.   É  provável que  tenha sido  o momento  em  que  Silas  o deixou.


Este,  segundo  o  redator  dos Atos, parece  ter  sido  um  homem  conciliador, flutuando  entre  os dois  partidos  e ligando-se ora  a um, ora  a  outros. 

 Nunca  efetivamente  a igreja cristã  teve  um  motivo  de dissidência  tão  profundo  como  o  que a  agitava nesse  momento. 

Graças  a alguns  serenos espíritos, a  Silas, Lucas  e  Timóteo,  as  agressões foram  amortecidas.

 Paulo respirou  livremente na Antioquia,  reencontrou  seu  antigo  companheiro  Barnabé  e provavelmente  Tito.

Paulo  estava ainda  lá quando  Pedro  lhe apareceu. Eles se  estimavam  como sempre se estimam os verdadeiramente  bons e fortes, quando  se  encontram relacionados  uns  com  os outros.  Conversaram  e  Pedro comeu  junto aos  pagãos convertidos. 

Alguns irmãos , munidos  de cartas  assinadas por  Tiago, como  chefe dos  doze, partiram  de  Jerusalém.  Segundo  eles,  Jerusalém  era  a única fonte  de toda a fé  e de qualquer mandato  apostólico, lá residiam  os  verdadeiros apóstolos. Se  alguém  pregasse sem  carta  assinada  pelo chefe da  igreja mãe e sem  haver jurado obediência,  devia ser  afastado  como falso  profeta, falso  apóstolo. Assim,  Paulo  que  não tinha essas cartas era um  intruso, envaidecendo-se de revelações  pessoais  inventadas e  de  uma  missão  de que  não  podia  apresentar  os títulos.

Em  toda  a  sua  plenitude  a  questão  da  autoridade  eclesiástica  e  da  revelação  individual  acabava  de  ser  colocada.  Tratava-se  de  saber  se  havia  um  poder  que  representasse  Jesus  ou  se  a  consciência  cristã  ficava  livre. Se para  pregar  Jesus  eram  necessárias  cartas  de   obediência  ou  se  a  afirmação  de  que  se  estava  iluminado  bastaria.  Paulo  só  dispunha  de  sua  palavra, como  prova. Um homem  que  sustenta  a sua  opinião  e as suas  prerrogativas,  que os  apostrofa  frente  a  frente,  esse homem  lhes  é  antipático"...

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"Os emissários de  Tiago  chegaram  a  Antioquia. Estes ficaram  escandalizados  quando  viram  Pedro  quebrar  os  pactos exteriores  que  um  judeu  respeitável  considera como  sendo  títulos  de  nobreza e  sinais de  superioridade.  Assim, Pedro  deixou  de  se  relacionar  com  os  incircuncisos.

 Até o próprio  Barnabé  começou  e  evitá-los,  imitando  Pedro.  Foi  enorme  a  cólera de  Paulo, chamando  de  hipocrisia  a esse  procedimento  e  acusando-os  de  falsear  o próprio  evangelho.

Quando  Paulo  encontrou  Pedro  diante  de  todos  disse:  "tu que  és  judeu, tu  não  vives  como  judeu;  na  prática  conduzes-te  como  verdadeiro  pagão  e  és  tu  que  nos queres  forçar  a judaizar,"   lançando-lhe  no  rosto,  a  sua  incoerência.

  Desenvolveu  após isso,  a  sua  teoria de  que a  salvação  se  operava  por Jesus e não  pela  Lei.  É  provável  que  Pedro  não  lhe respondesse, desejava apenas  satisfazer a  um  e  não  desprezar  os  demais  e  desta forma  não  se  consegue  senão  indispor  toda  a gente.

Após  a  partida  dos emissários  de Tiago, para alguns o  bom   Pedro  voltou  a  comer  com  os  gentios,  para  outros  o  rompimento  foi  completo.

Admite-se,  no  entanto,  que  o rompimento  de  Antioquia  deixou  traços profundos.  A  grande  igreja  separou-se  em duas paróquias: de um lado  a dos  circuncisos, do outro  a dos  incircuncisos.

Antioquia teve  dois bispos  como  se diria  mais  tarde, um  instruido  por  Pedro,  outro  por  Paulo.  São  indicados  Evode  e  Inácio  como tendo  exercido, depois  dos apóstolos, essas funções.

   Os  acontecimentos  de  Antioquia  geraram  tamanho ressentimento,  que  um  século  depois se  encontra  nos escritos  do  partido  judeu- cristão  como  uma referência  cheia  de  indignação.

  Esse eloquente  adversário  sozinho  quase conseguira arrastar  a   igreja  de  Antioquia  a dar-lhe  razão,  tornou-se  o seu grande  inimigo.  A  paixão  e  o entusiasmo religioso  estão  muito  distante  de eliminar  as  fraquezas humanas.  Deixando  Antioquia,  os discípulos  de  Tiago  juraram  inutilizar  o que  Paulo  havia  fundado, destruir  suas igrejas,  derrubar  o que  com tanto  sacrificio  construira.

Paulo  começou  a  ser considerado  por uma  parte  da  igreja  como  um  herético  dos mais  perigosos,  um  falso  judeu, um falso  apóstolo,  um  falso  profeta.  Era chamado de falso  visionário, sedutor pagão.  O  seu  evangelho  era  falso, as suas sinagogas  chamadas  "sinagogas de  Satã"  e  em  oposição  e  ódio  a Paulo  foi  proclamado  que apenas  os Doze  eram  a  base  e o fundamento  do edificio  de  Cristo. Assim,  teve  inicio  uma  lenda  contrária  à  Paulo.  Julgou-se  que  ele  nascera  pagão  e  que  se fizera  prosélito. 

 Tiago  ao  contrário, tornou-se  para  o  partido  judaico-cristão  o chefe  de  toda  a cristandade,  o bispo  dos bispos,  o presidente  de  todas  as boas  igrejas, das que verdadeiramente foram  fundadas  por  Deus.  A  palavra séria  e  um  tanto  enfática de Tiago, as suas  maneiras  que  lembravam  um  sábio  dos  tempos  antigos,  a sua  santidade  de luxo  e ostentação,  faziam  dele  um  personagem  de exibição para o povo, um homem  santo  oficial. Sustentou-se  que fora instituido  por  Jesus bispo  da cidade  Santa,  que  Jesus  lhe confiara  o  seu  próprio  trono  episcopal.

A  imagem  de  Jesus  nessa  familia cristã ia  sumindo."