"Em Jerusalém Paulo
não encontrára, sob o nome de parentes
de Jesus, senão judeus. Nessa época,
o chefe da igreja era Tiago. A
autoridade de Pedro não tinha diminuido com
isso, mas ele deixara de residir permanentemente
na cidade. Imitando Paulo, abraçara a vida apostólica
ativa.
A idéia de
que Paulo era o apóstolo dos gentios e
Pedro da circuncisão, crescia cada
vez mais. Pedro ia evangelizando os
judeus da Síria e levava com ele uma
companheira, esposa e diaconisa. Dando o exemplo
de apóstolo casado o qual os
missionários protestantes haviam de seguir
mais tarde. João Marcos aparece também com
o seu discipulo, companheiro e intérprete do grego.
As particularidades das
perigrinações de Pedro são desconhecidas. O
que delas mais tarde se narrou é em
grande parte fábula. Apenas sabemos que sua
vida como a de Paulo foi foi uma
série de provações. Pode-se acreditar que o
itinerário que serve de base aos atos
fabulosos de Pedro (Jerusalém, Cesaréia, Tiro, Sídon ,Bérito..
Antioquia) não seja imaginário. Sem dúvida ele
visitou Antioquia.
Tiago
se tornou "bispo dos hebreus", ou seja,
da parte dos discipulos que falavam a lingua semítica,
uma vez que Pedro deixou de ser o chefe-residente
da igreja de Jerusalém. Não era mais
Pedro, pois chefe da igreja universal, pois
Jerusalém continuava a ser o centro da
cristandade.
Tiago era, além disso, bastante
idoso e se diz orgulhoso, teimoso. Em
muitos aspectos era respeitável, tendo-se convertido depois
da morte de Jesus. Era conhecido como
" o irmão do Senhor, ou "O
justo" ou "amparo do povo",
era o representante na igreja de Jerusalém do
partido judeu mais intolerante. Enquanto os
apóstolos ativos percorriam o mundo para o
conquistar para Jesus, em Jerusalém se
fazia de tudo para destruir sua obra
e contradizer Jesus depois da sua morte.
Esta sociedade de fariseus
mal convertidos , este mundo na realidade mais
judeu do que cristão, vivendo à volta do templo,
conservando as antigas práticas da piedade judáica,
como se Jesus não as tivesse declaro vãs, constituia
uma companhia insuportável para Paulo.
Os judeus da estrita observância, os
seguidores de Tiago não queriam que
se angariassem prosélitos. Viam-se ultrapassados
e em vez de se lançarem aos pés de
Paulo, reconhecidos, tomavam-no por agitador.
Paulo evitando que o rompimento ocorresse, partiu o mais
depressa possivel para a Antioquia. É
provável que tenha sido o momento em que
Silas o deixou.
Este, segundo o redator dos
Atos, parece ter sido um homem conciliador,
flutuando entre os dois partidos e ligando-se
ora a um, ora a outros.
Nunca efetivamente a igreja
cristã teve um motivo de dissidência tão
profundo como o que a agitava nesse
momento.
Graças a alguns serenos espíritos, a
Silas, Lucas e Timóteo, as agressões foram
amortecidas.
Paulo respirou livremente na
Antioquia, reencontrou seu antigo companheiro
Barnabé e provavelmente Tito.
Paulo estava ainda lá quando
Pedro lhe apareceu. Eles se estimavam como sempre se estimam
os verdadeiramente bons e fortes, quando se encontram
relacionados uns com os outros. Conversaram
e Pedro comeu junto aos pagãos convertidos.
Alguns irmãos , munidos de cartas
assinadas por Tiago, como chefe dos doze, partiram
de Jerusalém. Segundo eles, Jerusalém era a
única fonte de toda a fé e de qualquer mandato apostólico, lá
residiam os verdadeiros apóstolos. Se alguém pregasse
sem carta assinada pelo chefe da igreja mãe e sem
haver jurado obediência, devia ser afastado como falso
profeta, falso apóstolo. Assim, Paulo que não tinha
essas cartas era um intruso, envaidecendo-se de revelações
pessoais inventadas e de uma missão de que
não podia apresentar os títulos.
Em toda a sua
plenitude a questão da autoridade
eclesiástica e da revelação individual
acabava de ser colocada. Tratava-se de
saber se havia um poder que representasse
Jesus ou se a consciência cristã
ficava livre. Se para pregar Jesus eram
necessárias cartas de obediência ou
se a afirmação de que se estava
iluminado bastaria. Paulo só dispunha de
sua palavra, como prova. Um homem que sustenta a
sua opinião e as suas prerrogativas, que os
apostrofa frente a frente, esse homem lhes
é antipático"...
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"Os emissários de Tiago
chegaram a Antioquia. Estes ficaram escandalizados
quando viram Pedro quebrar os pactos
exteriores que um judeu respeitável considera
como sendo títulos de nobreza e sinais de
superioridade. Assim, Pedro deixou de se
relacionar com os incircuncisos.
Até o próprio Barnabé
começou e evitá-los, imitando Pedro. Foi
enorme a cólera de Paulo, chamando de
hipocrisia a esse procedimento e acusando-os
de falsear o próprio evangelho.
Quando Paulo
encontrou Pedro diante de todos disse:
"tu que és judeu, tu não vives como
judeu; na prática conduzes-te como
verdadeiro pagão e és tu que nos
queres forçar a judaizar," lançando-lhe
no rosto, a sua incoerência.
Desenvolveu após isso, a
sua teoria de que a salvação se operava por
Jesus e não pela Lei. É provável que
Pedro não lhe respondesse, desejava apenas satisfazer a
um e não desprezar os demais e desta
forma não se consegue senão indispor
toda a gente.
Após a partida dos
emissários de Tiago, para alguns o bom Pedro
voltou a comer com os gentios, para
outros o rompimento foi completo.
Admite-se, no entanto, que
o rompimento de Antioquia deixou traços
profundos. A grande igreja separou-se em duas
paróquias: de um lado a dos circuncisos, do outro a
dos incircuncisos.
Antioquia teve dois bispos como
se diria mais tarde, um instruido por
Pedro, outro por Paulo. São indicados
Evode e Inácio como tendo exercido, depois dos
apóstolos, essas funções.
Os acontecimentos
de Antioquia geraram tamanho ressentimento, que
um século depois se encontra nos escritos
do partido judeu- cristão como uma referência
cheia de indignação.
Esse eloquente adversário
sozinho quase conseguira arrastar a igreja
de Antioquia a dar-lhe razão, tornou-se o seu
grande inimigo. A paixão e o entusiasmo
religioso estão muito distante de eliminar
as fraquezas humanas. Deixando Antioquia, os discípulos
de Tiago juraram inutilizar o que Paulo
havia fundado, destruir suas igrejas, derrubar o
que com tanto sacrificio construira.
Paulo começou a ser
considerado por uma parte da igreja como
um herético dos mais perigosos, um falso
judeu, um falso apóstolo, um falso profeta. Era
chamado de falso visionário, sedutor pagão. O seu
evangelho era falso, as suas sinagogas chamadas
"sinagogas de Satã" e em oposição
e ódio a Paulo foi proclamado que apenas os
Doze eram a base e o fundamento do edificio
de Cristo. Assim, teve inicio uma lenda
contrária à Paulo. Julgou-se que ele
nascera pagão e que se fizera prosélito.
Tiago ao contrário,
tornou-se para o partido judaico-cristão o
chefe de toda a cristandade, o bispo dos
bispos, o presidente de todas as boas igrejas,
das que verdadeiramente foram fundadas por Deus.
A palavra séria e um tanto enfática de Tiago, as
suas maneiras que lembravam um sábio
dos tempos antigos, a sua santidade de luxo
e ostentação, faziam dele um personagem de exibição
para o povo, um homem santo oficial. Sustentou-se que fora
instituido por Jesus bispo da cidade Santa,
que Jesus lhe confiara o seu próprio
trono episcopal.
A imagem de Jesus
nessa familia cristã ia sumindo."